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Josué de Castro, semente...

Atualizado: 8 de Set de 2020

Por Catarine Santos



05 de Setembro de 2020, 112 anos de nascimento de Josué de Castro. Pernambucano, médico, professor, pesquisador, humanista...também conhecido por Josué da Fome. Pioneiro por realizar o trabalho de campo descortinando o tabu da fome e relacionando-a à real causalidade política e social, com análise crítica e holística da problemática. A desigualdade estrutural é mostrada por Josué, que desmascara as raízes da fome.


Josué, enxergou e denunciou a fome na sua cidade natal, o Recife: “O fenômeno se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife: Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta é que foi a minha Sorbonne: a lama dos mangues do Recife, fervilhando de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo”.

Cidadão do mundo, foi deputado federal por Pernambuco, presidente da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação), embaixador do Brasil na ONU (Organização das Nações Unidas) e indicado três vezes ao prêmio Nobel. É lembrado pelo também Pernambucano Chico Science e o movimento manguebeat, quando denuncia em sua arte as iniquidades (ainda atuais) do Recife:


“Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça, Quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça”.

A fome não ficou na época dos estudos de Josué. Ela ainda é presente e nos últimos anos mostra-se não apenas na forma oculta. Atualmente vivemos uma pandemia de Covid-19, mas destacamos que não é culpa do vírus a ocorrência da fome e da insegurança alimentar, pois historicamente essas se fazem presentes na realidade brasileira. A questão é que muitas vezes optamos por não enxergar, principalmente se não nos afeta diretamente.


Produzimos alimentos, mas muitos não são comidas, são commodities; temos comida, mas nem todo mundo come. O desemprego e consequentemente a pobreza e a extrema pobreza vêm aumentando, o consumo de ultraprocessados é uma realidade em todos os estratos sociais e o acesso adequado e regular à alimentação não faz parte da rotina de muitos brasileiros e brasileiras. Diversas problemáticas alimentares e nutricionais. A raiz da obesidade se mostra semelhante à raiz da fome, pois comer é ato político e vivemos em meio a um sistema alimentar hegemônico que é insustentável, que favorece o agronegócio e vê o alimento como mercadoria.

Encerramos essa reflexão com o pensamento trazido por Josué no Geopolítica da Fome: “A luta contra a fome e a sua possível eliminação da superfície da Terra não constitui, portanto, utopia, nem o fantasmagórico sonho de um mundo de fadas, mas um objetivo perfeitamente realizável nos limites da capacidade dos homens e das possibilidades da Terra.”


Nós da Associação Pernambucana de Nutrição não poderíamos deixar de lembrar Josué, pois ele é atual e vive, virou semente através dos seus ensinamentos e da sua sensibilidade ao olhar o humano, o alimento e a fome. Que esse olhar do Josué esteja presente em nossa atuação ao olharmos e nos enxergarmos enquanto sociedade. Que a nossa luta seja pelo direito de todas e todas à alimentação e nutrição adequadas.


Referências:


CASTRO, Josué. Geografia da fome. 9ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

_________. Homens e Caranguejos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1967.

_________. Geopolítica da fome: ensaio sobre os problemas de alimentação e de população do mundo – 2º volume. 5ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1959.

Centro Josué de Castro. http://www.josuedecastro.org.br/jc/jc.html Acesso em 03 set 2020.




Catarine Santos da Silva é doutora em nutrição e docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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