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Nutricionista docente: agente de formação e transformação de realidades

Atualizado: 3 de Set de 2020

Catarine Santos e Leopoldina Sequeira

Quando nos formamos nutricionistas, um leque de áreas de atuação nos são possíveis. Hospitais, indústrias, consultórios, programas de saúde coletiva, dentre várias outras. Sem dúvida, todas têm sua importância e contribuem para o bem estar dos indivíduos e coletividades, mas, viemos aqui destacar aquela que é a base comum para o desenvolvimento de todas essas: a área da educação.

Por natureza, o nutricionista atua como educador, visto que compartilha, constrói e reconstrói diversos conhecimentos junto aos indivíduos e populações com quem atua. Entretanto, aqui queremos ressaltar a atuação daquele nutricionista que colabora para a formação e aperfeiçoamento de outros nutricionistas e técnicos em nutrição e dietética, ou seja, aquele que é docente, professor.

A sala de aula é um universo em si e um dos ambientes propícios para construção do conhecimento com aqueles que sonham em conquistar uma formação. Neste lugar, a energia relacionada ao saber se movimenta e está constantemente presente: a cada aula, oferecemos aos nossos discentes aquilo que aprendemos, que vivemos, e ao mesmo tempo, levamos de nossos estudantes as suas vivências e os conhecimentos prévios que cada um possui e compartilha...é uma retroalimentação, na qual esses dois atores constroem juntos o que chamamos de aprendizagem. Sobre isso, nosso mestre pernambucano Paulo Freire sabiamente nos diz no 1º capítulo do livro Pedagogia da Autonomia, nomeado de “Não há docência sem discência”: Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Sim, não há um sem o outro e estamos todos sempre aprendendo. Essa concepção de Paulo Freire nos mostra que o processo educativo é uma via de mão dupla, professor e aluno, numa relação de colaboração e respeito, a maneira única e insubstituível de existir de cada um, com suas marcas próprias, com suas trajetórias de vida e experiências.


As Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Nutrição assinalam a necessidade de o nutricionista-professor repensar sua concepção de profissional, ou seja, sobre sua prática cotidiana, o que significa possibilitar reflexão e criticidade em relação às formas de ensinar e aprender e contribuir para conhecer e transformar ou melhorar a realidade no contexto acadêmico, social e político.


A Lei n° 8.234/91, que regulamenta nossa profissão, estabelece como prerrogativa dos nutricionistas o ensino das matérias profissionais dos cursos de Graduação em Nutrição e o ensino das disciplinas de nutrição e alimentação nos cursos de graduação da área de saúde e outras afins. Somente esse privilégio legal garante que as atividades de ensino sejam prestadas por pessoas que adquiriram conhecimento bastante para ensinar matérias e disciplinas relacionadas à alimentação e nutrição. Seguindo nesse raciocínio, para exercer aquelas atividades docentes privativas descritas na referida Lei, este nutricionista necessita ser detentor de registro junto ao Conselho Regional de Nutricionistas da região onde a profissão está sendo exercida.


Academicamente, para atuar na docência, faz-se necessário que o nutricionista se especialize, busque a realização de pós-graduação stricto sensu em nível de mestrado e/ou doutorado e esteja sempre se atualizando em seu campo de estudo. Mas, como já comentamos, estamos sempre trilhando o caminho do aprender, pois, se considerarmos que a titulação do mais alto grau e um extenso Currículo Lattes nos fazem completos, conhecedores de tudo e é só o que importa, estaremos tendo uma visão reducionista do que é o saber. Isso não basta para atuar na docência, e mais, isso não basta para ser um bom docente. É necessário saber ouvir, compreender que somos seres ainda em aprendizado e reconhecer que nossos estudantes e a população em geral têm muito a nos ensinar. É reconhecer que todos somos seres produtores de conhecimento, independente de nosso Lattes, e que nossa identificação de vida mais importante não é a do ORCID. Essas reflexões também cabem e se fazem importantes em nossas orientações de trabalho de conclusão de curso, de especialização, mestrado e doutorado, ou ao fazermos pesquisa e extensão.

Anteriormente dissemos que a sala de aula é um dos ambientes propícios para a construção do conhecimento. Ressaltamos isso: é um dos. Isso porque o processo formativo exige mais, e por si, a universidade é mais do que um espaço onde acontecem as aulas. Na busca por uma formação de um profissional com visão ampla sobre a sociedade em que vive, precisamos também ultrapassar os muros das universidades. Para além de nossas aulas práticas e atividades de campo que realizamos com nossos estudantes, se faz necessária a promoção das atividades de extensão e pesquisa. Sim, precisamos ir ao território e nele e com ele construir (e desconstruir) conhecimentos, realizar descobertas e ressaltar saberes a partir e com a sabedoria popular, junto ao povo. Então, mais habilidades exigidas dos nutricionistas-docentes: organização, elaboração e coordenação de projetos (persistindo eticamente na luta em busca de financiamentos, que por sinal estão cada vez mais escassos) e a sensibilização do olhar para as necessidades de nossa sociedade a fim de produzir uma ciência cidadã que busca contribuir para a diminuição de iniquidades e que mostra o papel social das universidades .

Na nossa formação como nutricionistas somos Bacharéis. Quando comparamos os projetos pedagógicos de cursos de graduação em nutrição aos cursos de licenciatura temos pouca carga-horária para discussão de temáticas relacionadas à pedagogia e ao processo de ensino-aprendizagem. Isso é um ponto bastante desafiador: como ser professor quando não somos formados especificamente para atuarmos enquanto tal? Então, precisamos buscar, ir além e reconhecer que ser professor não é ser transmissor de conhecimentos. É tentar diminuir essa lacuna formadora com estudos sobre aprendizagem e leituras como Paulo Freire, Rubem Alves e outros mestres da educação. É preciso ter coragem para aprender a olhar para si e reconhecer quando a estratégia de ensino não foi tão boa e precisa ser revista. É reconhecer-se inacabado e capaz de mudar.

Atualmente vivenciamos um momento atípico no qual, em virtude da pandemia, se faz necessário estar remotamente com nossos discentes. Aulas presenciais ainda não são cabíveis considerando o atual momento sanitário. Então, mais habilidades que se fazem necessárias diante desse contexto: a resiliência, a capacidade de renovação e a empatia. Que a distância seja apenas geográfica e que a tecnologia possa ser uma aliada nesse momento transitório, cujo desafio acena para o futuro das novas gerações, em particular seus traços científicos e tecnológicos.

Por fim, aos que se aventuram nesse grande universo chamado docência, nossa admiração e agradecimento por ajudarem na conquista de sonhos e no florescer de novos profissionais.


Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

BRASIL. Lei 8.241/1991. Regulamenta a profissão de nutricionista e determina outras providências. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=A0E1E04CB765432355C415327108F653.proposicoesWebExterno2?codteor=665690&filename=LegislacaoCitada+-PL+5439/2009 Acesso em 28 jun 2020.

BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CES nº 5, de 7 de novembro de 2001. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Nutrição. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CES05.pdf

Acesso em 28 jun 2020.





Catarine Santos da Silva é doutora em nutrição e docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte







Leopoldina Augusta Souza Sequeira-de-Andrade é doutora em nutrição e docente da Universidade Federal de Pernambuco

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